Uso de Máscaras: O que Taiwan tem a nos ensinar

0001
Com mais de 23mi de habitantes e a apenas 130km da China, Taiwan tem passado incólume pelo novo coronavírus

Quatro meses após o surgimento de um surto agressivo de casos de coronavírus ter feito milhões de vítimas ao redor do globo e ter mudado toda configuração de mundo como antes conhecíamos, a ilha de Taiwan parece ter passado bem longe do epicentro da pandemia. Pelo fato de o país se encontrar a pouco mais de 130 quilômetros da China – onde a epidemia nasceu e teve umas das maiores quantidades de mortes –, esperava-se que o pequeno território insular acumularia naturalmente a segunda maior proporção de quantidade de infectados e óbitos em sua população. Uma vez que China e Taiwan compartilham de uma base cultural e linguística em comum e muitos chineses e taiwaneses possuem uma parentela entre si; sempre houve, portanto, uma frequência considerável de voos, seja por motivos de trabalho ou por questões familiares, de cidadãos taiwaneses para a China e vice-versa. Previa-se, então, que Taiwan seria o segundo país mais atingido pela COVID-19, seria apenas uma questão de tempo.

Aprendendo com o passado:

Os meses se passaram e a pandemia praticamente viajou para longe de Taiwan, felizmente. Com 23,7 milhões de habitantes, o país conta com 429 infectados e 6 mortes, a menor proporção de taxa de contaminação por habitante de toda a Ásia. A ilha que, só em 2019, recebeu cerca de 2,71 milhões de visitantes provenientes da China, conseguiu prever a seriedade do surto quando ainda estava no perímetro de Wuhan e tomou providências de forma antecipada.

0002
Com experiência acumulada desde a última epidemia da SARS, em 2003, o NHCC de Taiwan auxiliou o país na antecipação contra a COVID-19.

Sabe-se que Taiwan tem um certo expertise no controle de surtos desde a explosão da epidemia de SARS na China, em 2003. Na ocasião, o país instalou o Centro de Comando de Saúde Nacional (NHCC), um observatório que, desde então, tem estado em alerta constante e se preparado periodicamente para a detecção e a contenção precoces de possíveis surtos, sob diversos cenários. Tal experiência ajudou a acender o alerta vermelho mais cedo no pequeno país. No início de 2020, enquanto o mundo ainda subestimava a gravidade da então “pneumonia de origem desconhecida”, Taiwan já implementava suas primeiras medidas de ação contra o novo coronavírus. Uma série de diretrizes e protocolos de prevenção, mitigação e contenção elaboradas ao longo de décadas seriam finalmente postas em prática perante à pandemia que se avizinhava.

Nem os apelos das comemorações tradicionais do Ano Novo Chinês, foram suficientes para demover o governo taiwanês das providências de combate ao vírus. O “réveillon chinês” é a data comemorativa de maior importância da cultura chinesa. É o período de maior movimentação no comércio para compra de presentes, encontro de amigos e familiares e maior fluxo de viajantes durante todos os dias do feriado. Uma movimentação de multidões de pessoas em pleno à pandemia de COVID-19 seria o tiro final sobre o sistema de saúde de Taiwan. As medidas assertivas e prévias das autoridades da pequena ilha foram largamente eficazes para a prevenção de um morticínio no país. Milhões de vidas foram salvas.

O modo de atuação de todos os entes da sociedade, do empresariado e do governo foi tão bem engendrado que tem sido objeto de estudo de caso por diversos cientistas desde então. Autor de um dos diversos estudos científicos sobre Taiwan, o Dr. Wang afirma que o sucesso do país se deve ao fato de que foram preconizadas medidas de prevenção (diminuição do fluxo de pessoas nas ruas, limitação prévia de viagens vindas do exterior, uso de máscaras pela população) e detecção (testagem rápida, isolamento de sintomáticos), em vez de apenas remediação (medicamentos, respiradores).

População mascarada:

Dentre as medidas adotadas por Taiwan no enfrentamento contra o novo coronavírus, chama a atenção o uso precoce de máscaras por toda a população. Ora, sabe-se que, em muitos países asiáticos, o uso desses itens sempre foi corriqueiro por pessoas com sintomas de gripe, mesmo antes da COVID-19. A inovação de Taiwan foi a extensão de utilização de máscaras para todos.

0003
Desde cedo, Taiwan preconizou o uso de máscaras por todos.

Um vídeo gravado por uma câmera de captação especial e publicado pelo New England Journal of Medicine evidenciou a distância que gotículas de aerossol e de saliva podem alcançar após a tosse, o espirro ou um simples falar. Milhões de cepas de coronavírus encontraram um veículo de propagação suficientemente eficaz de humano para humano. Em observações posteriores, demonstrou-se que esses fluidos microscópicos emitidos por 2 ou 3 pessoas infectadas seria o suficiente para manter nuvens virais com franco poder de contaminação de até 3 horas em ambientes fechados.

Essa informação ajudou a esclarecer o porquê de ambientes fechados com acesso ao público geral (supermercados, farmácias, padarias, bancos e elevadores) tornaram-se o maior foco de contaminação pelo novo coronavírus, após espaços hospitalares.

Com o intuito de desacelerar a velocidade da pandemia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou o uso de máscaras para pacientes com sintomas de gripe, para seus familiares próximos que convivem na mesma casa e para os profissionais de saúde. A recomendação foi adotada por grande parte dos países, inclusive pelo próprio Ministério da Saúde no Brasil, ainda em fevereiro.

O uso de máscaras por todos seria uma medida “excessiva”, segundo a entidade. O artigo do Dr. Yan Bai jogou por terra essa ideia da OMS para o controle do vírus. Constatou-se que indivíduos assintomáticos seriam igualmente capazes de transmitir cepas de coronavírus para outras pessoas em até 7 dias antes do início dos sintomas. As recomendações da OMS demonstraram-se insuficientes, pois a contaminação ainda ocorria quase na mesma velocidade de antes.

Para uma contenção eficaz da propagação do novo coronavírus seria necessária a utilização de máscaras por todos, sem exceção e em todos os ambientes de circulação pública. Taiwan incentivou o uso racional de máscaras através de campanhas educativas nas ruas, na TV e na internet. Medidas copiadas por Japão e Singapura, dias depois.

Pesquisadores acreditam que este foi o ponto diferencial de Taiwan que o fez ter tanto sucesso contra a COVID-19 em relação ao restante do mundo. Pois, embora tão importante quanto o conhecimento sobre os sintomas, o distanciamento social e a higienização das mãos, o uso precoce de máscaras por todos não foi tão divulgado quanto o necessário. O que acabou sendo o fiel da balança para a rápida propagação do surto em diversas localidades em torno do globo.

Paulo Silva

Paulo Silva

Médico e pesquisador pela Universidade Federal do Pará

Deixe uma resposta