Serviços de Saúde Mental no Pós-Pandemia: Um “Tsunami” de Casos

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Após o controle da pandemia da COVID-19, espera-se que os serviços de saúde mental sejam sobrecarregados por uma demanda represada de antigos e novos casos psiquiátricos.

Por sua importância e capacidade de influência sobre o cotidiano da sociedade moderna, a saúde mental deveria compor o “pacote central” de respostas à pandemia da COVID-19, sendo necessário um maior investimento para lidar com um aumento previsto nos casos após as medidas de distanciamento social, quarentena e lockdown.

A opinião de psiquiatras, da Sociedade Brasileira de Psiquiatria e da Organização Mundial da Saúde é unânime: os serviços que prestam assistência à saúde mental sofrerão um aumento expressivo de demanda nos meses e anos seguintes ao surgimento do surto do novo coronavírus.

Uma pesquisa realizada entre 1369 membros do Royal College of Psychiatrists, do Reino Unido, constatou que cerca de 43% dos profissionais já estavam percebendo a existência de um aumento em casos de urgência e emergência psiquiátrica, cuja gama pode abranger desde casos de agravamento de ansiedade até tentativas de auto-dano.

Ao mesmo tempo, 45% dos psiquiatras relataram uma queda na frequência das consultas de rotina, o que pode sugerir que o incentivo ao auto-isolamento, o fechamento do trabalho ou da escola, a mudança brusca de rotina e o medo de se aproximar dos estabelecimentos de saúde devido ao risco de infecção são fatores determinantes para o afastamento desses pacientes.

Uma preocupação extra reside no fato de que o direcionamento dos sistemas de saúde para os casos de coronavírus venha a gerar uma demanda crescente represada para outras patologias não-COVID, as quais acabam ficando de fora dos ambientes de atendimento.

E assim sendo, em um segundo momento, após sanada a quantidade de casos relacionados diretamente à pandemia, pode-se esperar uma segunda onda de sobrecarga dos sistemas de saúde, dessa vez de casos não-COVID.

Grupos de Risco:

Especialistas em saúde mental alertam que medidas de combate à pandemia do novo coronavírus podem gerar um efeito rebote no âmbito psíquico, quando aplicadas de uma forma excessiva.

Por se tratar de um surto novo, governos do mundo inteiro têm aprendido a controlá-lo através da testagem de diversas alternativas que visem manter um equilíbrio mínimo entre as variantes que uma sociedade pode possuir.

Cumpre ao governante encontrar as medidas de combate à COVID-19 proporcionais às características de sua população, semelhantemente a um médico tentando encontrar a dosagem certa de um medicamento para seu paciente: se em baixa dose, não surte efeito; se em quantidade excessiva, envenena-o.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que “está claro que as necessidades em saúde mental também devem ser tratadas como um elemento central de nossa resposta e recuperação da pandemia da COVID-19”.

Quaisquer medidas governamentais que não levarem em consideração o bem-estar emocional das pessoas poderá produzir pesados custos sociais e econômicos de longo prazo para a sociedade.

Como o fornecimento de serviços de saúde mental de qualidade para todos acaba sendo muito difícil na atual realidade, é necessário preconizar que eles atendam pelo menos a demanda dos grupos de risco, os quais são compostos por pessoas de maior vulnerabilidade para o surgimento ou exacerbação de danos psíquicos e, portanto, necessitam de serviços de assistência com maior frequência do que o restante da população.

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Os profissionais de saúde da linha de frente constituem um grupo de risco para o desenvolvimento de transtorno de estresse pós-traumático causado pela pandemia.

Como as áreas médicas detêm seus grupos de risco, na Psiquiatria não seria diferente. No contexto da pandemia, os grupos de risco são:

– Crianças e adolescentes;

– Idosos;

– Pessoas em risco de abuso doméstico;

– Pessoas de grupos socioeconômicos menos favorecidos e/ou financeiramente dependente;

– Profissionais de saúde da linha de frente que enfrentam cargas de trabalho pesadas, decisões sobre vida ou morte e risco constante de se infectarem;

– Mulheres, particularmente aquelas que têm que se dividir entre a atenção aos filhos, o trabalho e as tarefas domésticas; e

– Pessoas com problemas pré-existentes de saúde mental ou relacionados à dependência química, os quais acabaram sendo agravados pelo fato desses indivíduos não poderem mais se reunir com seus grupos de apoio psicossocial.

Resposta Natural:

Desde seu descobrimento, o SARS-CoV-2 tomou conta das pautas dos noticiários diários e das primeiras páginas dos jornais de todo o planeta durante 6 meses.

Desde então, nunca existiu uma doença tão bem documentada, divulgada e pesquisada na história da humanidade. Seus efeitos e desdobramentos são noticiados de forma quase instantânea em transmissões ao vivo pela TV ou em postagens pela internet.

Todos têm acompanhado que uma besta-fera de apenas poucos microgramas é capaz de colapsar os sistemas de saúde mais modernos dos países mais ricos dos continentes mais prósperos.

Uma doença viral totalmente desconhecida, sem cura e potencialmente letal: é com isso que a humanidade deverá lidar pelos próximos meses.

Não é à toa que os surtos de estresse e ansiedade têm sido cada vez mais frequentes na população.

É até esperado que ocorram, levando-se em conta o presente cenário. Trata-se de uma reação natural do organismo a uma ameaça.

O estado patológico revela-se em uma permanência crônica desse estado de tensão emocional mesmo após a atenuação da ameaça.

Com o fim da pandemia, espera-se uma explosão de casos de estresse pós-traumático.

Como afirma Sarah Hughes, diretora-executiva do Centro de Saúde Mental do Reino Unido: “A saúde mental da maioria das pessoas se recuperará rapidamente quando as coisas melhorarem.

Mas, para um número significativo, os efeitos da pandemia na saúde mental serão sérios e duradouros”.

Assim sendo, será relativamente frequente que indivíduos permaneçam trancados em casa mesmo após o controle de casos da COVID-19, quando todas as outras pessoas já estiverem na rua.

O estresse pós-traumático ocasionado pelo novo coronavírus poderá provocar sérios prejuízos na sociabilidade de indivíduos, principalmente daqueles que possuem condições de risco prévias.

O vendedor pode se sentir receoso ao voltar a interagir diretamente com o público. O rapaz pode ter dificuldades a retornar à sua rotina na faculdade. Ou a jovem pode deixar de ir ao cinema com os amigos, mesmo quando todos eles estarão lá.

Uma sociabilidade deficitária gerará inevitavelmente percalços extras no trabalho, no estudo, na carreira e nos relacionamentos.

E, não raro, tais impedimentos e complexos emocionais propiciam uma sensação de estagnação completa na vida, o que pode descambar consequentemente para um humor deprimido.

Para atenuação desses efeitos psíquicos deletérios e bloqueio das limitações emocionais do estresse pós-traumático, é necessário que a pessoa acometida detenha de plena consciência sobre a fase sindrômica de uma condição mental provocada pela pandemia.

É vital que se puxe o véu psíquico da vaidade e da resistência, uma proteção que todos temos.

E, uma vez descoberto seu próprio estado de vulnerabilidade e reconhecido o efeito emocional causado pela COVID-19, o indivíduo poderá atuar sobre o controle da patologia.

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O medo, o estresse e a ansiedade são naturais para o momento caótico do novo coronavírus. Mas a persistência de qualquer estado de tensão após a pandemia já se constitui em um fator patológico, sendo necessária intervenção especializada

Tais caminhos são difíceis de serem encontrados sozinhos e tampouco seu mapa pode ser obtido por livros de autoajuda.

Somente um especialista em saúde mental, através de técnicas específicas, pode atuar de modo colaborativo para que o paciente se defronte finalmente com seu estado debilitador e o bloqueie completamente.

O novo coronavírus poderá acarretar impactos emocionais na sociedade semelhantes ao período pós-gripe espanhola ou os tempos pós-guerras.

Cabe aos governos, aos entes da sociedade e aos próprios indivíduos reconhecerem mais essa etapa como consequência da COVID-19 e, assim, agirem para o fortalecimento de estratégias de assistência em saúde mental.

Paulo Silva

Paulo Silva

Médico e pesquisador pela Universidade Federal do Pará

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