QUE PAÍS É ESSE?

O pensamento do geógrafo Milton Santos é bem atual para quem acha que suas obras não são mais bem vindas. No livro “espaço do cidadão” ele é categórico ao dizer que no Brasil, o progresso material obtido nos últimos anos tem como base a aceitação extrema de uma racionalidade econômica exercida pelas firmas mais poderosas, estrangeiras ou nacionais, e o uso extremo da força e do poder do Estado na criação de condições gerais de produção propicias à forma de crescimento adotada.

Milton vai além, para ele essas condições reais de produção não se abrangiam à criação de infraestrutura e sistemas adequados, mas chegavam à formulação das CONDIÇÕES POLÍTICAS que asseguravam o êxito mais retumbante à conjugação de esforços públicos e privados, no sentido de ver o país avançando, em passo acelerado, para uma forma “SUPERIOR” de CAPITALISMO.

Para tanto, segundo o geógrafo, a noção de direitos políticos e de direitos individuais teve que ser desrespeitada, se não frequentemente pisoteada e anulada.

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Quanto menor a renda e o grau de escolaridade, maiores são as dificuldades para acessar os direitos de cidadão. Tânia Rego/ Agência Brasil.

Sem esses pré-requisitos, seria IMPOSSÍVEL manter como POBRES milhões de brasileiros, cuja pobreza viria de fato a ser criada pelo MODELO ECONÔMICO ANUNCIADO como redentor.

Por fim, muitos POBRES acreditam nos slogans com que se popularizou o discurso cientificista dos economistas do regime, e acabaram mais pobres ainda.

O modelo político e o modelo cívico foram instrumentais ao modelo econômico. As esperanças com que este último acenava às massas eram por demais sedutoras, e estas massas eram despertadas para a necessidade, o interesse, a vantagem de ampliação do consumo, mas não para o EXERCÍCIO DA CIDADANIA, que era cada vez mais amputada. 

QUEM É CIDADÃO NESSE PAÍS MESMO?

As falas dos Ministros do governo Bolsonaro em relação aos indígenas, quilombolas, ciganos, funcionários públicos, ou então, as empreitadas para o desmatamento na Amazônia com a expansão da agropecuária intensificando o desmatamento, isso tudo nos mostra a presente racionalidade econômica de um projeto de gestão que tem como princípio tornar favorável a espoliação.

E por outro lado, invisibiliza povos originários e tradicionais que não correspondem às expectativas dessa racionalidade.

Por fim, essa racionalidade econômica não atende aos pequenos empresários e as classes populares, bem como, não interessa funcionalismo púbico, com exceção dos Militares.

Então, se este Governo não lhe contempla porque ainda defender? Seria algum problema cognitivo ou algum tipo de patologia? Pode ser cinismo e falta de caráter também? Ou porque deve lhe ser conveniente. São coisas que eu não consigo entender.

Aiala Couto

Aiala Couto

Doutor em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental pelo Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU-NAEA-UFPA);

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