Portas fechadas, janelas abertas: educação a distância em tempos de crise

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Foto: GETTY IMAGES

“você faz curso a distância? Ah! Bem mais fácil que um presencial”.

“cursos à distância não são bons, por isso são mais baratos”.

Tais ideias nunca se mostraram tão controversas. Porém, é comum ouvirmos algumas falas como as mencionadas acima. Expressões que remetem a crenças compartilhadas por inúmeras pessoas dentro e fora do ambiente acadêmico. Contudo, esse paradigma tem sido quebrado de forma repentina.

Podemos dizer que vivenciamos uma situação nunca experimentada pela maioria. A Pandemia pelo novo Coronavírus causou uma mudança drástica em nosso cotidiano, comportamento e na forma como enxergamos o mundo. Mas já dizia o grande pensador, Platão: “A necessidade é a mãe da criatividade”. E é dessa forma que estamos lidando com essa crise em várias áreas de conhecimento, e na educação não seria diferente.

O ensino na modalidade a distância (EaD) assumiu um papel fundamental na educação em meio a um isolamento social onde não há previsão de retorno às atividades presenciais. Várias instituições de ensino e seus professores iniciaram uma verdadeira odisseia em busca de alternativas para contornar essa grande barreira. Assim, o ensino EaD mostrou seu valor apresentando uma vasta coleção de plataformas, ferramentas e materiais online.

Em meio a tantas ferramentas surgiram, então, vários questionamentos: Quais usar? Como usar? Os alunos terão acesso? Como avaliar? Ora, o ensino EaD no Brasil remonta ao início do século XX (ABED), desde então vários trabalhos, pesquisas e experiências foram feitas na área para melhorar suas práticas. Assim, não seria tão simples migrar rapidamente da modalidade presencial para EaD.

Com essa avalanche de possibilidades vieram também as dificuldades de adaptação. Professores e alunos do ensino presencial encontram-se em um âmbito pouco explorado por eles. Ao se verem forçados a se adaptar a esse novo ambiente, os professores estão reaprendendo a planejar suas aulas e gerenciar seu tempo, aprenderam gravar e editar vídeos, manipular ferramentas digitais que antes desconheciam. O tempo de trabalho que se dava em algumas horas na escola, agora consome todo dia em casa. Os alunos, por sua vez, encontram-se em situação semelhante. Além das limitações de acesso a algumas das ferramentas utilizadas, eles precisam, mais do que nunca, manter a disciplina e a autonomia para a realização das tarefas. Essas são apenas algumas das dificuldades que muitos enfrentam.

Com relação a essas novas práticas adotadas pelas escolas e professores, o Instituto Península está conduzindo uma pesquisa intitulada “Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus no Brasil“. Esse estudo tem como objetivo investigar como os professores estão lidando com os cuidados, organização e também como eles lidam com seus medos, anseios e demandas de apoio.

Na primeira etapa da pesquisa, 2,4 mil professores que atuam da educação básica no Brasil foram submetidos a um questionário online. Os dados coletados mostram que os professores se encontram bastante preocupados com relação a saúde de sua família, bem como sua própria saúde física e mental. Mostram ainda que sua rotina de planejamento de aulas mudou drasticamente e que eles gostariam de receber mais apoio, como informações, formação, e auxílio psicológico.

Em meio a tudo isso, podemos dizer que o ensino EaD não é tão simples quanto parece e que possui muitas práticas que ainda são desconhecidas para muitos de nós, professores. Unindo isso ao fato de que a pandemia tem se alastrado de forma avassaladora levando conhecidos, amigos e familiares, o trabalho do professor torna-se ainda mais estressante.

Ainda assim não podemos perder o foco e a esperança de que tudo isso vai passar. E essa esperança é expressa em algumas das palavras que mais aparecem nos relatos dos professores que participaram da pesquisa: momento, passar, saúde, casa, Deus, fé.

Rinaldo Mescouto Filho

Rinaldo Mescouto Filho

Graduado em Licenciatura em Letras - Inglês (UFPA)

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