Por que os eletrônicos no Brasil são tão caros?

Três principais fatores são responsáveis por essa discrepância entre preços cobrados aqui e no exterior.

Fonte: Foto: (Divulgação/Goldgenie)

O preço dos aparelhos eletrônicos em solo brasileiro sempre foi um assunto que causou muitas reclamações por parte dos consumidores nacionais, o que fez muitos brasileiros recorrerem a importação direta ou indireta de aparelhos em sites como Aliexpress, Gearbest, entre outros.

Recentemente a Apple divulgou o novo iPhone SE como sendo o novo aparelho de entrada da marca, com preço de lançamento muito competitivo no mercado norte americano, custando a partir de U$ 399.

Este lançamento causou um verdadeiro alvoroço em várias partes do mundo, incluindo no Brasil, visto que o aparelho tem o mesmo desempenho dos flagships (top de linha) da marca, devido a compartilharem o poderoso chipset A13 bionic.

Entretanto, ao desembarcar no Brasil, o valor cobrado pelo lançamento deu um verdadeiro banho de água fria no público que planejava adquirir um iPhone de baixo custo. A Apple lançou no seu site oficial o aparelho partindo de R$ 3,699 na versão mais básica. Mas será que essa diferença considerável entre preços cobrados entre diferentes países realmente é culpa exclusiva das fabricantes?

A resposta para esse questionamento é simples: não.

É incorreto fazer conversões diretas entre preços de lançamento de quaisquer que sejam, pois existem uma série de fatores que são levados em conta pelas fabricantes na hora de estipular um valor justo e ao mesmo tempo lucrativo para venda.

Muitos sites de tecnologia, notícias e youtubers condenaram a empresa da maçã por estar supostamente trabalhando em preços diferentes em cada país que atua. Mas no final deste texto é provável que você também irá contestar estes argumentos. Abaixo estão elencados três principais motivos para a diferença no preço final cobrado ao consumidor.

DESVALORIZAÇÃO DO REAL PERANTE AO DÓLAR

Nos últimos anos, o real tem tido uma desvalorização considerável em relação a moeda norte americana. Para se ter ideia, no último mês de março, o dólar rompeu pela primeira vez na história a barreira dos R$ 5 e em maio quase chegou à cotação de R$ 6 (!), o que diminui o poder de compra dos Brasileiros e consequentemente eleva o valor de todos os produtos importados.

Essa flutuação elevada do câmbio e todos os cenários de incertezas causado pelo governo fazem com que as empresas tenham que abrir uma margem de segurança para evitar prejuízos.

Mas mesmo com a elevação dessa margem de lucro existe outro motivo, talvez o mais importante, para que o custo de produtos eletrônicos no Brasil seja tão elevado.

O PODER AQUISITIVO DA MOEDA BRASILEIRA

Além da desvalorização monetária, a maioria esmagadora dos brasileiros sofrem com o poder de compra reduzido do salário mínimo, e isso reflete não só nos eletrônicos, mas em todos os tipos de bens em serviços (segundo a ONU, em 2019, o Brasil foi o segundo pior país em distribuição de renda do mundo).

Este é um tema com diversas variáveis, mas utilizando um exemplo prático, vamos comparar o salário mínimo do Brasil em 2020 (R$ 1,045) com o dos EUA (aproximadamente U$ 1,160).

Se pegarmos novamente o lançamento da Apple como exemplo (U$ 399). É possível adquirir quase TRÊS iPhones com um salário mínimo mensal norte-americano, enquanto no Brasil seriam necessários mais de três meses de salário para conseguir comprar o celular da maçã.

CARGA TRIBUTÁRIA

Não é novidade que o povo Brasileiro paga uma altíssima carga de impostos em vários setores da economia, e óbvio que os preços dos eletrônicos não seria uma exceção.

De acordo com um estudo feito pelo Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação em 2017, a carga tributária média para celulares e smartphones, é em média 39,8%.

Vamos utilizar como exemplo o lançamento que causou tanta polêmica: o valor do novo iPhone SE subtraído desse percentual médio de impostos é, pasmem, de R$ 2.226,80.

Esse seria o preço cobrado no Brasil do novo lançamento da Apple sem os impostos existentes nas diversas esferas. Notem que este valor é muito próximo da conversão direta em relação ao preço cobrado na terra do Tio Sam.

E agora, será que realmente é culpa das fabricantes americanas, japonesas ou chinesas o real motivo de pagarmos um preço abusivo por eletrônicos? Ou os verdadeiros culpados estão bem mais perto do que imaginávamos? Mais precisamente em Brasília-DF e no seu próprio estado (ICMS).

Parafraseando Arthur O. Fraser, economista e sociólogo britânico “o poder de tributar é o poder de destruir.”

Marcos Medeiros

Marcos Medeiros

Geólogo, Mestrando em Geologia e Geoquímica (UFPA). Amante da Ciência e de novas tecnologias.

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