Necrocapitalismo: a economia ou a vida?

Usar
Charge: Nando Motta

O último vídeo divulgado pelo empresário milionário Robertos Justos que na oportunidade mais uma vez questionou o isolamento como medida de combate ao COVID-!9 ou SARS-II, deixa bem evidente, o que pensam a maioria dos grandes empresários brasileiros. Esse pensamento compactua com a fala do presidente que disse: “a economia não pode parar mesmo se parte da população precisar morrer para garantir esta produtividade” e ele ainda disse mais, “alguns vão morrer? Vão morrer. Lamento, essa é a vida”. Isto nos leva a uma nova forma de se pensar como devemos interpretar o modo de produção capitalista pela orientação do que Achille Mbembe chama de “Necroliberalismo”.

A evolução histórica do modo de produção capitalista sempre esteve fundamentada na distribuição desigual da riqueza, das oportunidades, e por conseguinte, do direito de viver. O geógrafo David Harvey ao se referir a evolução do capitalismo, destaca que ocorre no mundo um processo de desenvolvimento geográfico desigual baseados na produção da riqueza via exploração do trabalho e de matéria prima (espoliação). O economista Adam Smith defendia a tese de que o trabalho produz riqueza à medida que ele gera salários, consumos, lucros para os empresários que tendem a investir mais em modernização, gerando mais empregos, mais riqueza e mais investimentos, e assim por diante, assim as nações enriquecem.

Karl Marx crítica esta análise ao afirmar que a riqueza é produzida mediante a exploração do trabalho. É preciso então, compreender toda a lógica dialética que está por trás da produção da mercadoria. Uma lógica que enriquece uns (os donos dos meios de produção) em detrimento da exploração maciça da mãos de obra dos outros (força de trabalho). Para que ocorra acumulação do capital é preciso superar todas as barreiras espaciais para a circulação. David Harvey chama de “ajustes espaciais” onde as barreiras físicas devem ser vencidas como forma de promover em tempo hábil a circulação da mercadoria para ser consumida.

Hora, é justamente isso que está em jogo hoje. As grandes fortunas no mundo também são geradas mediante a especulação, aplicação de investimentos nas bolsas de valores, contrabando de ouro, diamante e outras mercadorias, narcotráfico, corrupção, tráfico de pessoas e exploração sexual, e por último, o financiamento de guerras, talvez por isso os países desenvolvidos difundiram a palavra “Guerra ao COVID19. Porém, fata coragem para bombardear a China o motor da economia global hoje.

O capitalismo carrega em sua essência a dialética do sacrifício em definir quem vale mais do que os outros e os que não tem valor tornam-se descartáveis ou matáveis. Essa é a reflexão que devemos fazer em relação a preocupação com o mercado ser maior do que com a vida das pessoas. Esse Necroliberalismo que opera regulando a vida das pessoas, nesse momento não pode ditar as regras de quem deve morrer para que o mercado seja salvo.

A diferença do passado é que segundo Achille Mbembe o COVID-19 democratizou o poder de matar. Agora todos nós podemos ter uma arma em mãos. Uma coisa é certa, nossos corpos estão em processo de transformação, não seremos mais os mesmos. E o hábito de sempre lavar as mãos, usar álcool em gel, evitar levar as mãos ao rosto, ter cuidado aonde se toca e evitar abraços e proximidades com os outros, já nos mostram o medo que temos do nosso corpo e do corpo dos outros. O corpo agora é uma arma que deve ser controlada em função do medo de ser contaminado e de contaminar outras pessoas, principalmente, aquelas que queríamos estar tão abraçados.

Por fim, estar em quarentena, isolar-se é nesse momento a única forma de regular esse poder de matar ou poder de morte. Agora todos somos soberanos e temos esse poder. A disciplinarização do corpo parte de nos mesmos como uma espécie de exercício para fugir dos riscos que ele nos representa é o direito de se manter vivo e sem contaminação. Há como eu queria um abraço das pessoas que eu amo. Mus amigos e familiares terão que esperar, por enquanto, tenho que conviver com as lembranças e saudades, mas na certeza que isso tudo vai passar e é só mais uma etapa da história da humanidade que deve refletir sobre a necessidade de mudanças.

#FiqueemCasa

Aiala Couto

Aiala Couto

Doutor em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental pelo Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU-NAEA-UFPA);

Deixe uma resposta