Implicações das demências, como Alzheimer, em tempos de isolamento social

A prevalência das Demências após os 65 anos é de cerca de 10 % e após os 75 anos pode chegar até a 20% dos idosos

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O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa progressiva, caracterizada pela perda das funções cognitivas (memória, orientação, atenção e linguagem). Foto: Reprodução.

O termo “Demência” origina-se do latim de (ausente) e mens (mente), ou seja, “sem mente”. Na verdade esse termo nunca se refere a uma doença específica, mas a uma síndrome, um conjunto de sinais e sintomas concomitantes, que podem ser desencadeados por causas variáveis.

Importante preocupação da Geriatria, Gerontologia e Saúde Pública, tanto pela sua prevalência quanto incidência, haja vista a inversão da pirâmide etária que vimos atravessando neste século, com aumento exponencial da população idosa. 

A prevalência das Demências após os 65 anos é de cerca de 10 % e após os 75 anos pode chegar até a 20% dos idosos.

Hoje há uma tendência dos leigos em geral, sejam familiares ou cuidadores de idosos, preocuparem-se unicamente com a Doença de Alzheimer, por ser a mais discutida e estudada das formas de demências, por isso mesmo muito valorizada pela mídia não especializada.

No entanto sempre é bom lembrar que existem outras formas de distúrbios cognitivos que devem ser identificados, valorizados e conduzidos adequadamente pelos médicos, especialistas ou não.

As Demências podem ser classificadas em Potencialmente Reversíveis (DPR) e Irreversíveis (DI). Dependendo de um bom e precoce diagnóstico, conhecendo-se a causa das demências ditas “reversíveis”, pode-se estabelecer um tratamento adequado, com uma reversão parcial e até total dos sintomas demenciais.

Entretanto, as Demências Irreversíveis correspondem a mais de 80% dos casos, e entre estas é que vamos encontrar classificada a Doença de Alzheimer, junto com Demência Vascular, Demência por corpúsculos de Levy e Demência Frontotemporal. E é aí então que reside nossa preocupação ao iniciar este artigo, a alta prevalência do Alzheimer.

Há uma tendência natural entre a população leiga, mesmo naqueles que já possuem algum caso diagnosticado em família, de que a Demência estaria restrita à perda de memória, iniciando pela recente, até a mais remota.

Mas não é só isso. Outras doenças podem facilmente ser confundidas com a Síndrome Demencial, quando o paciente apresenta apenas distúrbios de memória.

Na verdade, para que fechemos um diagnóstico de Síndrome Demencial (Alzheimer ou outras), além dos distúrbios de memória, o paciente deverá apresentar uma ou mais das seguintes alterações cognitivas: Perturbação da Linguagem (afasia), incapacidade motora (apraxia), Incapacidade de reconhecer ou identificar objetos (Agnosia) e perturbação do funcionamento executivo (organização, planejamento, sequenciamento, abstração). 

Uma consequência natural da superposição desses sinais ou sintomas no paciente com a Demência, é fazer com ele tenha também alterações comportamentais, tais como agitação psicomotora, insônia (inversão do ciclo sono/vigília), perambulação, por vezes agressividade.

Faz-se muito importante o papel do cuidador do idoso, seus familiares, as pessoas com quem convive, porque em muitos desses quadros, de evolução lenta e insidiosa, o paciente é o último a ter a percepção exata que algo está errado.

Normalmente, se nós médicos recebemos alguém que espontaneamente procura um serviço médico queixando-se de distúrbios de memória, já ficamos um pouco tranquilos para investigar com calma, pois quase sempre ele só perceberá quando as coisas estão bem complicadas e sua qualidade de vida já foi comprometida, bem como seu relacionamento familiar, profissional ou social.

Por isso, nessa oportunidade de Isolamento Social Obrigatório, com suas implicações familiares, econômicas e sociais, devemos todos estar atentos àqueles nossos idosos já com diagnóstico de Demências, para não alterarmos seu tratamento e daí advirem complicações, bem como para identificar sinais ou sintomas novos em pacientes não diagnosticados.

Uma vez identificados alguns dos sinais e sintomas relatados acima, que não existiam antes, ou que o isolamento fez com que fossem observados, tanto pela maior proximidade e convivência, como pela ampliação dos mesmos, faz-se mister procurar ajuda.

Qualquer médico Clínico, ou Médico de Família e Comunidade, bem preparado, tem como identificar e conduzir as Síndromes Demenciais.

Não é obrigatório que seja um Psiquiatra, Neurologista ou Geriatra, e essa crença muitas vezes faz com que se atrase a procura de ajuda.

Considerando o fator Pandemia e Isolamento, vamos observar se aquele idoso não apresentava antes sinais de Depressão, ou de alguma outra doença degenerativa que tenha complicado, como Diabetes, Hipotireoidismo, Parkinson.

Vamos controlar e fiscalizar melhor as medicações que o idoso vinha tomando: houve alguma alteração de terapêutica, alguma suspensão de medicamentos por conta própria, alguma automedicação? O idoso apresentou alguma queda com trauma da cabeça? Houve abuso do Tabagismo ou Etilismo? Tudo deve ser valorizado, para melhor informar ao profissional, que a essas alturas talvez só esteja sendo contatado via “on-line” ou por telefone.

Sabe-se muito bem que as Demências Irreversíveis, como o próprio nome aponta (entre elas o Alzheimer), não tem ainda um tratamento efetivamente curativo.

Todas as medicações atualmente em uso, tem como objetivo retardar a progressão da doença, estabilizar o quadro, amenizar os distúrbios comportamentais, melhorar a socialização e a qualidade de vida. Mas não garantem a cura.

Costumamos dizer em nossas aulas práticas aos internos do curso de medicina, que as drogas utilizadas são como um freio, uma barreira mecânica que se aciona ao veículo da mente, que desce uma ladeira em direção ao abismo da total alienação.

O veículo para, mas não consegue voltar de ré. Os pesquisadores lutam para descobrir uma droga que cure totalmente, mas ainda é apenas um sonho.

Muito importante lembrar que essas drogas atualmente utilizadas, só podem ser obtidas com receitas controladas e carimbadas com o CRM, então deve-se criar um mecanismo de comunicação com os serviços médicos, para continuidade da receita, sem necessariamente ter que submeter o idoso ao risco de quebrar sua quarentena.

Portanto, o que o nosso portador de Demências, principalmente Alzheimer, precisa nesses tempo de Pandemia e Isolamento Social, é uma Atenção redobrada, Vigilância, Responsabilidade, Manutenção adequada de tratamentos, conhecimento de causa da família e cuidados especiais, que se resumem em uma única e definitiva palavra: AMOR.

Dr. Jorge Coelho

Dr. Jorge Coelho

Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Amazonas, 1981; Possui Especialização em Geriatria e Gerontologia, Medicina do Trabalho e Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Pará (UEPA); Mestrado em Educação em Saúde na Amazônia, pela UEPA; Docente no curso de medicina da UEPA, de 2001 a 2019, no Módulo de Estratégia Saúde da Família; Coordenador do Curso de Medicina da UEPA no biênio 2008/2010; Supervisor de área do Programa Mais Médicos para o Brasil, em Belém, 2017/2018; Docente no Curso de Medicina do Centro Universitário do Pará (CESUPA) desde 2006, nos módulos de Interação em Saúde da Comunidade MISC, (primeiro e quarto semestre) e de Internato em Saúde do Idoso (décimo primeiro semestre).

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