Autismo e o Isolamento Social em Tempos de Pandemia

Em tempos de pandemia e isolamento social, é muito comum ouvirmos comentários de pais/responsáveis falando sobre as dificuldades e desafios que é manter as suas crianças e adolescentes em casa e além disso, fazer com que eles estudem acompanhando diferentes modelos de educação contemporânea (vídeos, vídeo chamada ,marcação de páginas de materiais didáticos etc.). Realmente não deve ser tarefa fácil. Agora imaginem tudo isso diante de um indivíduo atípico que tem o TEA (Transtorno do Espectro Autista).

O Transtorno do Espectro Autista apresenta diferentes níveis de manifestações sendo classificado em leve, moderado e severo. Poderíamos aqui nos estender aos conceitos e estudos a respeito do TEA, mas não é o nosso objetivo, visaremos apenas retratar os desafios que é viver em isolamento social com um indivíduo que tem o autismo.

Com uma vida cheia de rotinas (assim deve ser a lida de um autista) entre  idas e vindas de terapeutas, psicólogos, escolas, centros específicos de tratamentos, o indivíduo que tem o TEA  desenvolve uma boa relação, na maioria das vezes, com esse turbilhão de acompanhamentos  que o  faz evoluir no seu comportamento e aprendizado , porém a quebra desta rotina poderá acarretar diferentes  situações que vão desde a desorganização  passando por um alto nível de estresse e até mesmo momentos de “birra”, pois  a falta de compreensão em ter que permanecer em casa provoca no mesmo alterações de comportamentos.

Buscar alternativas (nem sempre é muito fácil) para que os dias de confinamento sejam menos sofridos para indivíduos que tem o TEA, tem sido a saída da maioria dos pais que tem a linda missão de criar e educar um filho que tem o autismo.  As diferentes formas inusitadas que “ a olho nu “ parecem  um absurdo, retrata os diferentes comportamentos da incrível diversidade que é o Espectro autista, pois como vale ressaltar , cada indivíduo que tem esse transtorno, apresenta um comportamento diferenciado, portanto não existe uma fórmula mágica para lhe dar com essa problemática.

Voltinha de carro, descidinha rápida na área comum do prédio (na maioria dos casos tem que pedir autorização ao síndico para poder circular nesta área, pois está interditada), vídeos da galinha pintadinha , ou até mesmo aplicativos de celulares tem sido as diferentes  maneiras para aliviar a tensão tanto dos pais que se encontram sem saber o que fazer , já que entregam os seus filhos aos cuidados de especialistas  para que possam desenvolver as habilidades de seus filhos  quanto para o indivíduo que tem o TEA que longe de suas atividades rotineiras, está sujeito a mudanças de comportamentos.

É bom lembrar neste momento que acompanhar as atividades que são atribuídas ao indivíduo que tem o TEA por profissionais responsáveis pelo seu desenvolvimento faz toda a diferença para que pais e responsáveis possam aplicar em casa em dias normais. Talvez se muitos pais tivessem mais tempo e curiosidade em aprender como se faz, agora estariam mais tranquilos com o isolamento social. Mas sigamos firmes. Ligar ou passar uma mensagem para um dos profissionais que trabalha com o indivíduo que tem o TEA pode render preciosas dicas para colocar em ação em casa. É possível desenvolver  pequenas atividades de fácil condução e com materiais que estão disponíveis dentro de casa , basta que para isso o responsável tenha um olhar mais apurado sobre a questão e das coisas que lhe rodeiam , pois de uma simples cadeira poderá surgir uma atividade de coordenação motora grossa para os dias longos de isolamento social.

Não basta apenas criar atividades alternativas em casa ou  repetir algumas atividades desenvolvidas por profissionais  que atuam na rotina deste individuo .É preciso criar uma nova rotina. É preciso que todos que fazem parte da família participem lembrando sempre que alí estão diante de um indivíduo atípico que teve a sua rotina quebrada. Se é difícil para os típicos, também é difícil para os atípicos, portanto a reorganização da família é fundamental neste momento.

Mas a pergunta é: o que posso fazer? Como colocar em prática tudo isso?

Volto a afirmar que o ‘olhar diferenciado’ faz toda a diferença nesta hora.

Vejamos os exemplos a seguir e percebam que são utilizados materiais fáceis de encontrar em casa.

Mosaico Final
A hora é de colocar as ideias em ação. Fotos: Mauro Nascimento

 

Os vídeos a seguir, mostram perfeitamente que é possível fazer de sua casa uma sala de atividades multidisciplinar.

Estimulando a Coordenação Motora.

 

 

 

 

 

Alguns depoimentos de mães de indivíduos que tem o autismo em tempos de isolamento social. Observem que, no final das contas, a quebra de rotina é sem dúvidas a maior dificuldade a ser vencida.

Josê Clair, engenheira florestal, dedicação exclusiva ao seu filho Daniel de 10 anos (autista não verbal):

“O confinamento e isolamento tumultuou a rotina de terapias e escola. Trouxe muitas birras e algumas crises (a maioria pela compulsão alimentar muitos choros e gritos) estabelecer uma rotina integralmente no ambiente doméstico não é fácil é um desafio diário pois tenho que me dividir entre os afazeres de casa e a busca de atenção incessante do meu filho. Aos poucos estamos nos ajustando, mas ele precisa de uma recompensa que seja uma voltinha de carro quando pai chega. Mesmo com todos avanços e as vezes retrocessos como sono irregular e fazer xixi na cama coisa que fazia tempo que não acontecia ele me surpreende com os avanços como a participação nas tarefas domésticas aqui”.

Hildamar do Socorro Pinheiro da Silva, Policial Civil, mãe do Hian (autista Clássico):

Meu filho Hian, 26 anos, estudante de jornalismo, vê com estranheza, pois assiste os jornais e quer ver lá fora, na rua a reação das pessoas, e quer ver para crer o que passa na TV. Só falta pedir p ir aos hospitais 🤦🏼‍♀️. Pede p sair na rua p ver as pessoas de máscaras. E até desafia a doença dizendo q quer pegar😒. Tudo p me preocupar, nova forma de chamar a atenção”. 

Érika Moraes ,  bióloga ,mãe do Emanuel  (autismo leve):

“Na  verdade o Emanuel entendeu muito rápido a necessidade do isolamento social no início ele sentiu uma pouco a questão de não ir para a rua não ir para a escola não ir para as terapias , mas entendeu bem rápido que não podia devido ao vírus e para ele também não ficar doente e aceitou muito bem ele tem a irmã em casa que é a companhia dele 24 horas  Eles brincam Eles brigam eles compartilham tudo e ele não se sente tão sozinho além do que os pais que eram ausentes durante o dia estão mais próximos dele. O que eu percebi de alteração no comportamento foi a questão do sono que ele tem sentido um pouco de dificuldade para dormir com relação ao horário ele tem dormido tarde e às vezes reclama que não está conseguindo dormir e quer uma historinha mas quando ele dorme ele vai direto até de manhã e acorda tarde. Ele também disse que quando o coronavírus passar ele quer ir comer batata frita e pergunta se vai demorar muito para passar o corona vírus Ele também gosta de falar com as pessoas no telefone através de vídeo ver as pessoas e conversar através dos vídeos eu pensei que fosse ser difícil , mais difícil com ele mas graças a Deus até agora ele está tranquilo somente aquela questão que eu te falei do sono que está indo dormir mais tarde e tá sentindo um pouquinho mais de fome a noite porque ele tá dormindo mais tarde até agora eu acredito que que seja isso. O que me preocupa e como ele vai reagir na ressocialização porque será uma mudança meio brusca”.

Portanto, podemos observar que ter um indivíduo que tem o autismo em casa em tempos de pandemia requer criatividade e principalmente boa vontade. O que para uns parece estranho, para outros é uma grande dádiva ter um” azulzinho “para dividir os longos dias de isolamento social.

Mauro Nascimento

Mauro Nascimento

Professor graduado em Letras e Especialista em Educação Inclusiva e em Educação de Autistas.

2 comentários em “Autismo e o Isolamento Social em Tempos de Pandemia

  • Avatar
    10 de maio de 2020 em 13:58
    Permalink

    Muito bom Professor Mauro!!! Parabéns pela matéria! Nossos azuiszinhos são demais e nos surpreendem mesmo!!!

    Resposta
    • Avatar
      13 de maio de 2020 em 18:38
      Permalink

      Gostei muito da matéria, e dos depoimentos das mães, mostra que todo o esforço delas e dos pais, para fazer os autistas interagiram de modo diferente nesta pandemia está valendo muito..

      Resposta

Deixe uma resposta