Armados e perigosos: as bases do racismo no Brasil

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Foto: Reprodução.

Essa imagem retrata uma história que vivi em Março de 2002 quando voltava para casa e de forma violenta e truculenta fui abordado pela polícia.

Na ocasião eu estava voltando da UFPA depois de ter realizado minha matricula e me deparei com os gritos “mãos na cabeça e vai pra parede caralho”.

A única arma que eu portava era meu comprovante de matrícula. Os policiais questionaram sobre um assalto e seu eu conhecia o assaltante. Confesso que não consegui reagir diante da situação de estar com uma arma apontada para a sua direção e nunca consegui superar esse trauma.

Tenho convicção que no Brasil a população africana e afrodescendente tiveram potencialmente suas imagens associadas às narrativas carregadas de negatividade e desprezo, condicionando-as a uma estrutura política, econômica, social e geográfica determinada por condições raciais.

Para o filósofo Achille Mbembe (2019), a raça esteve, no decorrer dos séculos precedentes, na origem de inúmeras catástrofes, tendo sido a causa de devastações psíquicas assombrosas e de incalculáveis crimes e massacres.

A raça é uma invenção e construção ideológica que tem como fundamento o domínio dos corpos e dos territórios, e sendo assim, o racismo segundo Mbembe  é um “dispositivo de violência”, ou então, como nos ressalta Michel Foucault, é um dispositivo de poder.

No Brasil, as bases do racismo estrutural vão sendo construídas por uma elite escravocrata que se mantém no poder e impõe ao negro todas as condições necessárias para a sua exclusão e legitimação do genocídio.

Portanto, o negro vai ser o bandido, o vagabundo, o preto preguiçoso, o preto malandro, o desocupado, para as mulheres a condição ainda é pior, pois elas serão as prostitutas, as empregadas domésticas que serão abusadas por seus patrões, serão as mulheres estupradas, estupro esse naturalizado.

Consolida-se então, termos como; negrinho, negrinha, denegrir, lado negro, alma negra, magia negra (alusão negativa as religiões de matriz africana).

Para fugir do lado negro, surgem então palavras como; clarear e esclarecer, ou seja, se está escuro é porque está sendo de difícil compreensão.

Mas, surge então, o termo Pardo que se define pelo sujeito que não é branco e nem negro. O Pardo é resultado do estupro da mulher negra pelo homem branco, bem como, resulta também do estupro das mulheres indígenas.

De qualquer forma, o Brasil é o único país do mundo em que negros se tornam pardos pelos simples fato de não se reconhecerem enquanto negros.

E para piorar a situação surgem então os termos; moreno claro e moreno escuro, uma tentativa desesperadora de fugir da cor da pele original.

Aqui,  ninguém nasce negro e sim  torna-se negro. Ser negro é uma construção identitária e coletiva.

O racismo é a denominação da discriminação e do preconceito (direta ou indiretamente) contra indivíduos ou grupos por causa de sua etnia ou cor.

É importante ressaltar que o preconceito é uma forma de conceito ou juízo formulado sem qualquer conhecimento prévio do assunto tratado, enquanto a discriminação é o ato de separar, excluir ou diferenciar pessoas ou objetos.

Talvez muitos tenham passado por essas formas de violência sem ao menos identificar ou perceber, falta-lhes consciência política ou de classe ou então lhes falta coragem para lutar contra a opressão.

Todos os dias somos obrigados a conviver com situações constrangedoras difundidas por práticas/ações por parte de pessoas que reproduzem o racismo ou por parte da polícia que nos vê como potenciais criminosos, configurando-se aquilo que Pierre Bourdieu chamou de “violência simbólica”.

Esses atos de violência causam um trauma psicológico, só quem é negro e já sofreu algum tipo de racimo sabe o quanto machuca por dentro. 

Dito isto, ressalto que não é que faltam dentro do Movimento Negro leituras sociológicas sobre o racismo.

Visto que, isto tem até de sobra, mas é importante ler os autores e intelectuais negros que escrevem sobre o racismo.

A interpretação do branco sobre o tema sempre vai ser diferente.  A dor sempre vai ser nossa e não do homem branco.

O Movimento Negro é diversificado. Cada tendência tem pautas e posicionamentos mais ou menos radicais, não peçam para os radicais não serem violentos contra os racistas, pois são os racistas que batem palmas quando um jovem negro é linchado e assassinado, são os racistas que nos subjugam o tempo todo duvidando da nossa capacidade de poder, inclusive, falar por nos mesmos e dos nossos problemas.  

Diante de todo o histórico de contradições é impossível não politizar o Movimento Negro, pois sempre nos foram negados os Direitos Civis e enquanto nenhuma revolução popular não chega é por meio da política que tentamos conseguir direitos.

Precisamos ocupar espaços e garantir o que se prega o Estatuto da Igualdade Racial (Lei Nº 12.288, de 20 de julho de 2010) e garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica.

Por fim, primeiro procure entender por um negro o que é ser negro no Brasil, depois procure saber o que é racismo não pelos racistas e sim por quem por ele é oprimido.

Afinal, a luta anti-racista não e só dos negros, ela pode ser dos brancos. E para quem ainda não se tornou negro ainda, deixo a frase e Abdias do Nascimento; “ser negro não é uma condição, é um compromisso”.

Aiala Couto

Aiala Couto

Doutor em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental pelo Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU-NAEA-UFPA);

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