A vida nas periferias sob a bio-necropolítica

Hoje
Necropolítica é um conceito desenvolvido pelo filósofo negro, historiador, teórico político e professor universitário camaronense Achille Mbembe. Foto: Reprodução.

O esforço de fazer um texto breve e bem direto acerca da vida nas periferias a partir das ações da necropolítica soa muito mais como uma pequena provocação em busca de reflexões críticas sobre a violência policial no Brasil.

Disto isto, afirmo em meus argumentos (ou tese) que o Estado e sua pulsação genocida opera a partir da construção de um saber que liga indissociavelmente a crítica da vida e a política da luta e do trabalho necessários para escapar à morte.

Impõe então, uma perspectiva em que do seu ponto de vista, a luta tem por objeto produzir a vida, e, nesse sentido, a “violência absoluta” desempenha uma função desintoxicante e instituinte.


É pela violência de Estado que o homem-corpo se torna homem-coisa, coisa estigmatizada no conjunto da população como homens “perigosos”, bárbaros e desprovidos de humanidades.

É preciso então, defender a “humanidade civilizada”, mantê-la viva e protegida. Esse corte que também é racial, Michel Foucault chamou de biopolítica, onde é preciso “fazer viver e deixar morrer”.


A necropolítica opera complementando em função dessa defesa da sociedade, onde o “fazer morrer e deixar viver” é o fundamento principal da gestão da morte tendo no determinismo racial seu alicerce, transformando sujeitos vivos em sujeitos mortos ou “formas de vida” em “vidas sem forma”.

Assim, o Estado age para fazer morrer seus indesejáveis, sobretudo, a partir da construção de uma política de inimizade como bem destaca Mbembe (1998).

Nesse sentido, nas periferias e favelas onde habitam populações negras em sua maioria, a vida se assemelha a um constante combate sem fim em busca da sobrevivência, “estritamente falando, a vida é aquilo que a luta tiver produzido” (Mbembe, 2019).


Pode-se dizer então que para a população negra das periferias vigiadas e punidas pelo poder estatal policial, a luta possui uma tripla dimensão: em primeiro lugar, é uma luta que visa destruir aquilo que destrói ou aquilo que cega e provoca medo e raiva.

Buscam alternativas de sobrevivência, de cultura e de lazer, buscam uma razão para existir e continuar vivos diante de todas as negligencias orientadas pela gestão da morte.


Em segundo lugar, nas periferias, a população tenta tratar e curar aqueles e aquelas que o poder feriu, jovens executados com seus corpos esticados no chão sobre os holofotes dos jornais e sobre os olhares acostumados de quem mora nesses lugares, são pessoas torturadas, esculachadas, encarceradas por estarem nos “lugares de morte”, e, portanto, são inimigas de uma ordem político-social racista que se mantém hegemônica, tratam também, daqueles que o poder fez deprimir-se e enlouquecer.

A função da luta nesse sentido é participar ativamente do processo geral de cura.


E finalmente, a luta se dá na busca pelo sepultamento de todos aqueles que tombaram como diz Mbembe (2019) “abatidos pelas costas”.

É a função de sepultamento. Para Achille Mbembe (2019), em torno destas três funções surge claramente o elo entre o poder e a vida.

O poder, nessa perspectiva, só é poder enquanto se exerce sobre a vida, no pondo de distribuição entre a saúde, a doença e a morte (o sepultamento).

A luta nesse sentido também é administrar as formas de resistência e as condições de existências diante da manifestação cotidiana do necropoder.


Diante da retomada de ideais fascistas e racistas, faz-se necessário a consolidação de uma unidade da resistência à necropolítica historicamente imposta pela política genocida do Estado, onde racismo estrutural e racismo institucional misturam-se aos vários tipos presentes em nossa sociedade.

Resistir é o primeiro passo.

Aiala Couto

Aiala Couto

Doutor em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental pelo Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU-NAEA-UFPA);

Deixe uma resposta