A economia criativa pode ser essencial para o pós-pandemia

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Fonte da Imagem: SIMI

Luiz Alberto Machado


“… as crises econômicas inevitavelmente dão origem a períodos críticos em que uma economia é refeita para que possa recuperar-se e recomeçar a crescer. Esses são os períodos que chamo de grandes recomeços.”

Richard Florida


Embora já tenha se transformado num dos segmentos mais relevantes em diversas economias, tais como as do Reino Unido, Espanha e Nova Zelândia, bem como de regiões de alguns países, como São Francisco e Austin, nos Estados Unidos, e Toscana, na Itália, a economia criativa segue representando papel secundário no Brasil, em parte por desconhecimento do seu potencial, em parte pela descontinuidade das políticas públicas nas diferenças instâncias de governo.


Considerada estratégica pelos governos dos países acima mencionados e por organismos multilaterais como a Unesco e a Unctad, a economia criativa pode ser definida como a essência da economia do conhecimento ou do intangível, onde consumidores e criadores se confundem, assim como as empresas são ao mesmo tempo provedoras e consumidoras de serviços e bens mais ou menos sofisticados. Consumidores mais exigentes obrigam as empresas a se aperfeiçoarem e, ao fazê-lo, as empresas geram empregos e renda que estimulam novas demandas.


No Brasil, a economia criativa ganhou impulso com a criação da Secretaria Nacional da Economia Criativa, em 2011, no âmbito do Ministério da Cultura, que tinha na época como titular da pasta, Ana de Holanda. Em que pese não dispor de recursos volumosos, a secretária de Economia da Criativa, Cláudia Leitão, mediante esforço extraordinário, conhecimento de causa e competência na gestão, conseguiu resultados consideráveis, notadamente no sentido de difundir e conscientizar pessoas e instituições sobre o imenso potencial que apresentava e o impacto que poderia ter em nosso país.


O Plano da Secretaria de Economia Criativa, lançado em 2012, enfatizava o caráter multidisciplinar do segmento e destacava seus quatro elementos norteadores: diversidade cultural, sustentabilidade, inclusão social e inovação.

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A economia criativa brasileira e seus principais norteadores. Fonte: Plano da Secretaria da Economia Criativa
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Sistemas de classificação das economias criativas derivadas de diferentes modelos. Fonte: Relatório Anual de 2010 da Unctad.

Como se pode constatar verificando as diferentes colunas, há itens que aparecem em alguns modelos e não em outros, como Esportes, por exemplo, além de divergências quanto às subdivisões, quer na nomenclatura, quer no enquadramento. Publicações mais recentes incluem também itens como Gastronomia e Turismo.

Vale sempre a ressalva de que a economia criativa compreende a idealização, concepção e desenvolvimento de todos esses itens. A partir do momento que entram na linha de produção, passam a ser considerados e contabilizados em segmentos específicos como o comercial ou o industrial.


Mesmo considerando essa ressalva, não resta dúvida de que se trata de um segmento amplo e expressivo, no qual alguns itens ganham cada vez mais destaque em todo o mundo, cabendo menção especial ao de games (jogos de vídeo e computador), pela elevada incorporação de inovação e capacidade de aproveitamento dos moderníssimos recursos da tecnologia da informação.


Entre os grandes especialistas espalhados pelo mundo, eu destacaria dois no exterior – Richard Florida e John Howkins – e dois no Brasil – Cláudia Leitão e Ana Carla Fonseca Reis. Todos têm oferecido enorme contribuição para a disseminação do conceito e aplicação de projetos de economia criativa por meio da publicação de livros e artigos, da participação em congressos, conferências e palestras ou da assessoria na formulação de políticas públicas.


Richard Florida, urbanista canadense que divide seu tempo entre seu país natal e os Estados Unidos, autor do clássico “A ascensão da economia criativa”, publicou posteriormente o livro “O grande recomeço”. Lançado no final da crise econômico-financeira que teve origem no setor hipotecário norte-americano, espalhando-se depois por todo o mundo, nele Florida realça o papel importante desempenhado pela economia criativa na recuperação de diversas localidades do meio-oeste dos Estados Unidos, cujos negócios eram historicamente ligados à produção de carvão. Muitos desses negócios, que já vinham em decadência por serem altamente poluentes e pouco produtivos em comparação a outras fontes de energia, receberam com a crise seu golpe final, indo à falência e encerrando suas atividades. Como assinalou Florida em O grande recomeço, o ressurgimento das cinzas não ocorreu com a reativação das antigas unidades de produção, mas com outros completamente diferentes, caracterizados pela utilização intensiva da criatividade e da imaginação, matérias-primas básicas da economia criativa.


Se isso foi possível numa das regiões que mais se atrasaram na corrida do desenvolvimento nas ultimas décadas do século XX nos Estados Unidos, por que não seria possível num país que possui a quantidade e a diversidade de recursos naturais, bem como o volume de recursos humanos como o Brasil?


Para tanto, duas condições são absolutamente fundamentais:

1. Empenho generalizado na melhora da educação em todos os níveis;


2. Continuidade e coordenação de políticas públicas nas três esferas de governo.


Será sonhar demais?

Luiz Alberto Machado

Luiz Alberto Machado

Economista, graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Mackenzie, mestre em Criatividade e Inovação pela Universidade Fernando Pessoa (Portugal), é sócio-diretor da empresa SAM - Souza Aranha Machado Consultoria e Produções Artísticas e diretor adjunto do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial. Foi presidente do Corecon-SP e do Cofecon.

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